A história do off-road começou nas rodas — literalmente.
Muito antes de falarmos em torque, tração ou bloqueio, existia apenas uma pergunta:
como fazer um veículo rodar em qualquer tipo de terreno?
Os pneus são a conexão entre o sonho e o chão.
Entre o plano e a trilha.
E a jornada deles até os modelos modernos que usamos hoje é uma verdadeira expedição de engenhosidade, barro e muita evolução.
As raízes da tração, de onde veio o pneu.
Tudo começou em 1888, quando John Boyd Dunlop teve uma ideia simples e genial: colocar ar dentro de uma roda.
O pneu pneumático nasceu para bicicletas, mas logo ganhou o mundo automotivo.
Até então, os carros usavam rodas de borracha sólida — duras, desconfortáveis e com tração quase nula.
À medida que os veículos ganhavam força e velocidade, o pneu se tornou o elo vital entre homem, máquina e terreno.
E naquela época, vale lembrar: estrada pavimentada era artigo de luxo.
Quase todo caminho era de terra, pedra e lama.
ADRENAINTERESSANTE
No fim do século XIX, dirigir era quase um esporte radical. Não havia asfalto, apenas barro, buracos e coragem.
Os primeiros pneus já encaravam o que hoje chamaríamos de “trilha leve” — só que todos os dias.
A GUERRA QUE ACELEROU NO BARRO
As grandes guerras do século XX foram um divisor de águas na história dos pneus.
Na Primeira Guerra Mundial (1914–1918), o mundo descobriu uma nova necessidade: tração.
Até então, os veículos usavam pneus lisos ou com ranhuras discretas, criados apenas para as estradas urbanas — mas as frentes de batalha eram pura lama, neve e crateras.
Foi nesse cenário que surgiram os primeiros pneus reforçados de tração, ainda rudimentares, mas revolucionários.
Caminhões como o FWD Model B e o Jeffery Quad, ambos americanos, foram pioneiros no uso de tração 4x4 e pneus com ranhuras diagonais para enfrentar terrenos intransitáveis.
Do outro lado do Atlântico, veículos como o Renault EG e o Peugeot 146 receberam versões especiais de pneus criadas pela Michelin, com blocos largos e estrutura reforçada — os primeiros passos do que se tornaria o pneu off-road.
ADRENAINTERESSANTE
Durante a Primeira Guerra, muitos soldados improvisavam tração fixando tiras de couro ou correntes metálicas sobre os pneus lisos. Essa gambiarra de trincheira inspirou os primeiros padrões moldados de tração, que logo seriam adotados pelas fábricas.
Com o fim do conflito, as lições aprendidas nas estradas de barro e nas colunas de suprimento não foram esquecidas.
Entre as duas guerras, na década de 1930, fabricantes como Dunlop, Goodyear e Firestone começaram a testar desenhos de tração mais agressivos, criando os primeiros pneus com blocos retos e barras paralelas, um formato que se tornaria lendário poucos anos depois.
Foi durante a Segunda Guerra Mundial (1939–1945) que essa evolução atingiu o auge.
O desafio militar era claro: fazer veículos avançarem sobre lama, areia, neve e pedra, sem depender de estradas. Nasciam os pneus com o padrão “Bar Grip”, com cravos retos, profundos e espaçados para garantir tração bruta e autolimpeza da banda de rodagem.
Modelos icônicos como o Jeep Willys MB, o Ford GPW, o Volkswagen Kübelwagen e, logo depois, o Land Rover Série I, mostraram ao mundo que a borracha também podia ser uma arma poderosa — e que o fora de estrada havia acabado de nascer.
ADRENAINTERESSANTE
Os primeiros pneus “Bar Grip” foram desenvolvidos no final da década de 1930 para os veículos aliados, principalmente o Willys MB.
Produzidos por Dunlop, Goodyear e Firestone, tornaram-se o padrão militar internacional e o molde que inspirou todos os pneus off-road modernos.
Do campo de batalha para a lama, e depois, para o mundo
Quando a guerra terminou, milhares de jeeps militares foram vendidos a civis.
Eles voltaram à ativa como verdadeiros operários do pós-guerra: puxando arados, transportando cargas e vencendo terrenos intransitáveis em fazendas, obras e regiões rurais.
E foi nesse cenário que o jipe começou a mostrar o que realmente sabia fazer: trabalhar em terrenos difíceis e chegar onde mais ninguém chegava.
Com o tempo, quem usava esses veículos no dia a dia começou a perceber que, além de úteis, eles eram divertidos.
Confira abaixo o vídeo de época mostrando o Jeep FARM em ação, super interessante para quem gosta de história do automobilismo.
A aventura nasceu do trabalho.
As primeiras trilhas recreativas surgiram nos Estados Unidos entre as décadas de 40 e 50, quando fazendeiros, ex-militares e mecânicos começaram a se reunir para testar limites, os deles e os dos carros.
Foi aí que o mercado percebeu um novo tipo de paixão crescendo.
Marcas como Firestone, Goodyear, Michelin e BFGoodrich começaram a criar pneus mais resistentes, capazes de suportar tanto o asfalto quanto a lama.
Datas e marcas
Firestone e Goodyear: Desenvolveram pneus reforçados e “Mud & Snow” a partir da década de 1950.
BFGoodrich: só em 1976 lançou o primeiro All-Terrain T/A, o primeiro pneu genuinamente “dual purpose” (estrada e lama).
A década de 1970 marcou uma virada histórica com o lançamento do BFGoodrich All-Terrain T/A, o primeiro pneu radial realmente projetado para uso misto, rodovia e fora de estrada.
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O nome “T/A” vem de Traction/Advantage — uma marca registrada da BFGoodrich que significa “Vantagem em Tração”.
Esse modelo inaugurou a categoria A/T (All-Terrain), destinada a quem precisava de um pneu equilibrado: capaz de encarar lama e cascalho, mas ainda confortável e seguro no asfalto.
O sucesso foi imediato.
O pneu certo transformou o jipe de ferramenta em companheiro de viagem.
Naquele momento, o espírito de aventura começou a ganhar forma: viajantes do mundo inteiro passaram a cruzar países inteiros com o mesmo jogo de pneus, enfrentando desertos, montanhas e trilhas remotas — tudo sem abrir mão da estrada.
Foi o início do que hoje conhecemos como cultura overlander, uma forma de viver a estrada onde o caminho é mais importante que o destino.
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“O termo ‘Overlander’ surgiu na Austrália, nos anos 1950, usado para descrever viajantes que cruzavam o interior do país em jipes, caminhonetes e caminhões leves, autossuficientes por longas distâncias.
Dos pneus artesanais à engenharia nacional — a evolução que vimos de perto
Nos anos 1980 e 1990, o off-road brasileiro ainda era um campo de experimentação.
Era comum ver jipeiros usando pneus agrícolas, militares ou sem fronteira, em medidas modestas se comparadas às de hoje.
O mercado nacional ainda engatinhava, mas a necessidade gerou criatividade: oficinas especializadas começaram a desenvolver moldes próprios, reforçar carcaças e criar desenhos exclusivos para encarar a lama, o cascalho e as trilhas pesadas do interior do país.
O objetivo era simples e direto: fazer pneus que aguentassem o tranco da realidade brasileira, onde uma trilha leve de domingo podia facilmente virar um atoleiro épico.
Já nos anos 2000 podemos narrar a nossa experiência, pois vimos de perto muita coisa evoluir até os dias de hoje.
Em nossa trajetória, desde o nascimento do ADRENALAMA (2003), testamos uma infinidade de pneus de diferentes marcas, medidas e estilos. E talvez por isso possamos dizer com certa propriedade: os pneus off-road também fizeram história no Brasil.
Nessa época as coisas mudaram para melhor, as grandes marcas já tinham pneus direcionados para o off-road e eu mesmo experimentei marcas e modelos diferentes como o BF Goodrich 33”, Wrangler 35” da Goodyear, Scorpion 31” da Pirelli — cada um com suas virtudes e limitações.
Apesar de existirem pneus “off-road” fabricados pelas grandes marcas, quando o assunto é trilha pesada de verdade, eles simplesmente não dão conta do recado.
Com o tempo, a galera do 4x4 começou a buscar percursos cada vez mais insanos — e os pneus precisaram evoluir na marra pra acompanhar esse espírito de desafio.
A partir daí, o foco mudou: menos desempenho no asfalto, mais tração na lama.
Porque, dependendo do terreno, se você não tiver os pneus certos... é melhor nem nem entrar na trilha!
Foi justamente nessa época (anos 2000) que o ADRENALAMA começou a “pegar pesado” de verdade, o mercado começava a oferecer pneus para uso extremo, feitos artesanalmente (literalmente). Os pneus “off-road” mais radicais eram recapados manualmente, com cravos colados, um a um, sobre carcaças usadas que eram raspadas para receber os novos cravos que eram maiores e posicionados com mais distância entre si.
Poucas empresas dominavam essa técnica, e uma delas era a 3K Pneus, fabricando bons pneus, entre eles o modelo Frederico, que utilizei em trilhas pesadas e realmente era um pneu muito superior em desempenho quando a trilha ficava pesada.
Nessa mesma época a Genius Tyres, uma empresa modesta, instalada à beira da Rodovia Raposo Tavares em Sorocaba, também fabricava pneus com a mesma metodologia artesanal, cravo por cravo, à mão, mas que logo mostraria uma inquietação típica de quem nasceu para inovar.
Por volta de 2005, passamos a usar os pneus Genius Tyres em nossas aventuras e a acompanhar de perto sua história.
Abaixo, a primeira trilha do ADRENALAMA com pneus Genius Tyres, gravada em 2005 num haras em Araçoiaba da Serra/SP para o programa de TV Estilo 4x4 — onde apresentávamos, em rede nacional, o inesquecível quadro “Quanto pior, melhor!”
Desde então, a Genius iniciou um processo de transformação notável.
Primeiro, passou a produzir suas próprias bandas pré-moldadas com desenhos exclusivos, trazendo grande variedade de modelos de banda de rodagem com qualidade inédita para o mercado nacional.
Pouco depois, enfrentou um novo desafio: encontrar carcaças grandes o suficiente para suportar as medidas que o público começava a exigir.
Essas carcaças se tornaram artigos raros, devido à crescente demanda por pneus maiores para equipar os jipes e veículos de trilha no Brasil.
A solução foi, literalmente, genial: desenvolver carcaças novas e lisas, criadas especificamente para receber essas bandas, um conceito híbrido entre o pneu recapado e o pneu novo, uma verdadeira invenção brasileira.
E então veio a fase definitiva: a Genius Tyres começou a fabricar pneus totalmente novos, moldados de ponta a ponta, com compostos e desenhos desenvolvidos internamente.
Nasciam os pneus de uso extremo, com cravos robustos e bem espaçados, capazes de tracionar em lama profunda e resistir às competições mais duras do país.
A evolução foi tamanha que, em poucos anos, os pneus que um dia eram feitos artesanalmente na beira de uma estrada passaram a ser exportados para praticamente o mundo inteiro.
Hoje, a marca que nasceu em Sorocaba está presente na América do Sul, América Central, Ásia e Europa, com modelos que chegam a impressionantes 52 polegadas.
É impossível não sentir orgulho.
Ver uma empresa brasileira, nascida do barro e da coragem, alcançar esse nível é testemunhar um pedaço da história, não só do off-road, mas também da engenharia nacional.
A Genius Tyres é um exemplo de como a paixão e a persistência transformam um sonho de oficina em uma marca que hoje representa o Brasil nas trilhas do mundo.
ADRENAOPINIÃO
No off-road, bons pneus fazem a diferença entre ir e voltar seguramente, falhar ou superar obstáculos.
Ter um bom jogo de pneus, manter a calibragem correta para cada tipo de terreno, fazer rodízio na hora certa e cuidar da durabilidade não é frescura, é questão de segurança e de respeito pela aventura. Um pneu bem cuidado freia melhor, traciona e garante melhor controle do veículo.
Também é fundamental lembrar que um pneu off-road não se comporta como um pneu de uso urbano. Em asfalto, a aderência muda, o tempo de frenagem aumenta e o barulho constante lembra o tempo todo que aquele conjunto foi feito para terra, não para shopping. Por isso, saber conduzir com responsabilidade nas estradas e ruas da cidade é tão importante quanto saber entrar em uma trilha de verdade.
Os pneus off-road dão a personalidade do 4x4. Basta olhar o desenho da banda de rodagem para imaginar o tipo de “tocada” do dono e os desafios que ele procura. Escolher pneus maiores e mais agressivos envolve uma cadeia de decisões: muitas vezes é preciso reforçar eixos, mexer em suspensão, ajustar relação de diferencial, revisar freios e até pensar em ganho de torque ou potência. Uma coisa leva à outra, sempre.
Por isso, antes de sair aumentando medida “no impulso”, vale respirar fundo e pesquisar bem. Entenda que tipo de trilha você pretende fazer, qual é o seu estilo de pilotagem, quanto está disposto a investir nas modificações estruturais que serão necessárias, vale inclusive ponderar a porcentagem de uso no asfalto e terra. Na dúvida, procure orientação técnica, converse com quem já passou por esse processo e lembre que, no fim das contas, pneus não servem só para deixar o 4x4 mais bonito, servem para trazer você e sua turma de volta para casa com boas histórias, e não com arrependimentos.
Fontes de pesquisa
Invenção do pneu e primeiros modelos (século XIX)
Dunlop Tyres Archives – “John Boyd Dunlop and the Birth of the Pneumatic Tire”, Dublin, 1888.
Michelin Heritage Center – “Les débuts du pneumatique”, Clermont-Ferrand, France.
Smithsonian Institution Archives – Transportation Collection, section on early pneumatic wheels (1888–1905).
Primeira Guerra Mundial (1914–1918): o nascimento da tração
Dunlop Tyre Museum – “Military Tire Design, 1914–1918”.
Michelin Heritage Center – “Pneus militaires et l’évolution de la traction pendant la Première Guerre mondiale”.
Imperial War Museum (IWM, Londres) – Military Transport Collection (veículos FWD Model B, Jeffery Quad, Renault EG, Peugeot 146).
Military Vehicle Preservation Association (MVPA, EUA) – “Early 4x4 military transport during World War I”.
National WWI Museum and Memorial (Kansas City, USA) – Digital archive of early motorized military vehicles.
Entre guerras (1919–1938): experimentos e padrões de tração
Goodyear Archives – “From Solid Rubber to Bar Grip: Tire Design Between Wars”.
Firestone Tire & Rubber Company History Center – Industrial reports 1930s on traction patterns.
The Tyre Industry Journal (UK) – Volume 12 (1937), papers on block tread and early off-road tests.
Segunda Guerra Mundial (1939–1945): os pneus “Bar Grip”
Goodyear Military Division Records (Akron, Ohio) – “Bar Grip and Combat Tire Evolution, 1939–1945”.
Firestone Archives – “WWII military tire manufacturing processes”.
Dunlop Tyre Museum (Birmingham) – “Standard Bar Grip tire specification, 1941”.
Imperial War Museum – Photos and data of Willys MB, Ford GPW, Kübelwagen, Bedford QL, Austin K2, Land Rover Series I.
Jeep Heritage Collection (Stellantis Official Archive) – “Willys MB 1941 and its legacy”.
Volkswagen Classic Archives – “Kübelwagen development and off-road capability”.
Pós-guerra: uso civil e nascimento do off-road recreativo (1946–1960)
Smithsonian National Museum of American History – Exhibit “Jeep: From Battlefield to Farm”
→ https://americanhistory.si.edu/collections/search/object/nmah_840501
Willys Motors Advertising Archive (1946–1956) – Campanhas “Jeep – the workhorse of the farm” e “Jeep for Work or Play”.
Jeep Heritage Collection (Stellantis) – “CJ-2A, CJ-3A and the civilian era”.
Jeep Jamboree USA – Official History – Origins of Rubicon Trail (1953).
→ https://jeepjamboreeusa.com/history/
Cal4Wheel Drive Association – “History of the California Four Wheel Drive Club” (fundado em 1959).
→ https://cal4wheel.com/about/history
Motor Trend Classic – “The Rubicon Trail: Birthplace of Off-Road Recreation”.
A era dos All-Terrain (1970–1980)
BFGoodrich Official Heritage – “The Birth of the Radial All-Terrain T/A (1976)”.
→ https://www.bfgoodrichtires.com/about-bfgoodrich/history.html
Goodyear Corporate Archives – “Mud & Snow and All-Season Tire Development 1950–1980”.
Michelin Corporate History – “Introduction of the radial tire technology and its off-road adaptation”.
4x4 Magazine (UK) – Back issues, late 1970s, covering early All-Terrain tire tests.
O off-road brasileiro e o início da indústria nacional (1980–2000)
Revista 4x4 & Pick-Up (Brasil) – edições 1986–1994: reportagens sobre pneus nacionais e recapagens.
Associação Brasileira do Segmento de Reforma de Pneus (ABR) – “Histórico da recapagem artesanal e autoclaves no Brasil”.
Fórum 4x4Brasil.com.br – tópicos “História dos pneus off-road nacionais” e “3K Pneus, Frederico e os recapados artesanais”.
FENAJEEP (Federação Nacional de Jeep Clubes) – acervo de competições e registros técnicos 1990–2000.
Jeep Clube do Brasil – boletins internos e fotos de expedições 1990–2005.
Genius Tyres (2005–2025): da produção artesanal à exportação global
Arquivo interno e histórico institucional da Genius Tyres (Sorocaba/SP).
Registros fotográficos do ADRENALAMA (2005–2025).
Catálogos técnicos Genius Tyres OGRO, PRO e EXTREME (2020–2025).
Entrevistas e comunicações diretas com fabricantes brasileiros de pneus off-road (3K, Genius, Giga).
Referências visuais complementares
Smithsonian NMAH — “Jeep for the Farm” photo archive.
Jeep Jamboree USA — Rubicon Trail 1953 event photos.
Imperial War Museum — WWII transport vehicles gallery.
FENAJEEP — histórico fotográfico de competições (anos 90).
ADRENALAMA — acervo próprio de fotos originais (2003–2025).
Publicações e livros de apoio
Foster, Patrick R. — Jeep: The History of America’s Greatest Vehicle, Motorbooks, 2016.
Wood, Quentin — Military Jeeps 1940–1945: Development and Production, Osprey Publishing, 2004.
Hennessey, Tom — The Tire Industry: A Century of Innovation, Goodyear Historical Press, 2001.
Revista Motor Trend Classic — “How the Jeep and the All-Terrain Tire Changed Adventure” (Edição de 2011).